22 de September de 2019

A psicanálise é um modo (dentre outros) de narrar? – Patricia Moraga (português)

Existe uma estreita relação entre a narrativa e a psicanálise. Nas tragédias gregas, o herói se encontra atravessado, dominado, por…


Existe uma estreita relação entre a narrativa e a psicanálise. Nas tragédias gregas, o herói se encontra atravessado, dominado, por uma hybris, um excesso que o leva a realizar atos dos quais se faz responsável, apesar de não querê-los. Existe uma relação sempre destacada entre o herói e a palavra que vem do Outro, a palavra o comanda, ainda que o sujeito não possa lhe dar sentido. Em Sófocles, a função do oráculo é fundamental porque encarna, dentre outras coisas, o enigma e o destino. Édipo é o decifrador de enigmas, aquele que investiga um crime e descobre, ao final, que o criminoso é ele próprio. Ele tem que reconstruir um relato ausente, o de seu nascimento, de sua vida. Também está presente esta relação na tragédia moderna. O que traumatiza Hamlet é a palavra do pai. Lacan diz que “se há alguém que é envenenado pela orelha, esse alguém é Hamlet. E o que cumpre a função de veneno é a palavra de seu pai”[1].

As tragédias contam como o sujeito é traumatizado pelas palavras e Jacques-Alain Miller – que se pergunta se podemos distinguir uma literatura do fantasma e outra do sinthome[2] – nos conduz ao que está mais-além do Édipo e do sentido.

Sadismo e masoquismo receberam seus nomes de dois escritores – o Marquês de Sade e Leopold Sacher-Masoch – diferentes no plano literário, filosófico e no modo de gozar. Em um precioso texto intitulado O Erotismo[3], Georges Bataille mostra a diferença entre o homem violento, que não fala nem se dirige ao Outro, e o Marquês de Sade, que escreve e se dirige ao Outro. Sade nos ensina – diz Bataille – o excesso é que nos funda enquanto sujeitos. Entre os verdugos sadianos e suas vítimas não pode haver relação alguma. No nível do gozo não há comunicação. O respeito pelo outro vai em sentido contrário ao próprio gozo e a soberania que os sujeitos sadianos se asseguram na razão. Os verdugos são frios e o prazer se obtém a partir do raciocínio. Todas as torturas infligidas às vítimas devem ser argumentadas. O sádico é um instrumento de gozo do Outro. Isto é o que importa. Trabalha para introduzir no Outro o gozo que lhe falta, dando-lhe consistência e existência.

Lacan reconhece que Gilles Deleuze fez a melhor análise do masoquismo, a partir das novelas eróticas de Sacher-Masoch, tal como A Vênus das Peles[4]. O masoquismo nos ensina a importância do parceiro. Masoch é um pedagogo – disse Deleuze – porque tem que transformar uma mulher para que sua parceira seja “fria e cruel”. O masoquista dita as palavras que o verdugo deve lhe dirigir, dá voz ao Outro e o obedece como um cachorrinho. Das perversões, o masoquismo é a que chega mais longe.

Sadismo e masoquismo suprem a relação sexual que não existe com o fantasma. Por outro lado, a psicose nos ensina que a escritura, como nos disse Éric Laurent, pode ser uma invenção, um tratamento para esvaziar gozo e, ao mesmo tempo, fixá-lo a uma letra[5]. Mas um escritor também dá testemunho – à sua maneira – do momento em que se encontrou com a escritura e ela se tornou necessária. Paul Auster disse que, para ele, escrever é um ato de sobrevivência. Alejandra Pizarnik escrevia para que não acontecesse o que temia, para afastar o mal[6]. Escrever um poema, para ela, era reparar o dilacerado, a ferida fundamental. O fazer poético implica exorcizar, conjurar e reparar. A morada é a palavra, ainda que persista a suspeita de que o essencial é indizível. Marguerite Duras escreve a partir do que não sabe, em uma solidão construída para seguir viva. Sua relação com a escrita é erótica, jamais deixa ler o que está escrevendo, “do mesmo modo que não se diz ao amante como somos amadas pelo marido”[7].

Todos escrevemos, então, mas não todos somos escritores. A pergunta Quem escreve? conduz a um impasse, pois introduz os temas do ser, o sujeito, a identidade e a diferença entre enunciado e enunciação. Para sair desse impasse, podemos mudar de pergunta: O que escreve?

Para trabalhar a questão da identidade, Derrida disse que os escritos autobiográficos são aqueles nos quais se compromete o corpo e o nome[8]. Nietzsche, por sua vez, no prólogo de Ecce Homo, nos diz o seguinte:

Como prevejo que dentro de pouco tempo terei de dirigir-me à humanidade apresentando-lhe a mais grave exigência que jamais se lhe foi feito, me parece indispensável dizer quem sou eu. No fundo, seria lícito saber desde já: pois não deixei de “dar testemunho” de mim. Mas, a desproporção entre a grandeza da minha tarefa e a pequenez de meus contemporâneos, se manifestou no fato de que não me ouviram nem tampouco, e sequer, me viram. Eu vivo de meu próprio crédito[9].

Sua própria identidade se mostra desproporcional ao que seus conterrâneos conhecem sob o nome Friedrich Nietzsche. Este nome, então, ocultaria o outro Friedrich Nietzsche. Isso nos induz a desconfiar cada vez que nos encontramos com sua assinatura ou a cada vez que afirma “Eu, Friedrich Nietzsche”. Se sua vida depende de um contrato consigo mesmo e com alguns outros, o não reconhecimento dos outros faz com que sua vida possa ser apenas um prejuízo: me basta falar com qualquer pessoa culta para convencer-me de que eu não vivo.

FN (Friedrich Nietzsche), Dionísio contra o Crucificado, Zaratustra: esta pluralidade de nomes perturba a ideia de que podemos ter uma identidade, do relato de vida, da autobiografia. Em Nietzsche há uma pluralidade de nomes que não se confundem com o nome de seu sinthome, que pode ser extraído de seus escritos. A repetição do mesmo foi seu tormento, o real como impossível de suportar. Para seu tormento, feito de paixões, Zaratustra encontrou sua solução: “o eterno retorno como diferença”. O mortificante da repetição encontra seu tratamento na “afirmação do instante, no consentimento ao que acontece. O dizer sim transforma a repetição em diferença. O eterno retorno é o nome de seu sinthome.

Não todos somos escritores, mas às vezes, na contingência de um encontro afortunado, algo se faz letra. Cada um se agarra, à sua maneira, numa invenção temporária, sob transferência, sua minúscula e singular invenção. Esta escritura não acontece na solidão: se escreve com um analista que acompanha, durante o tempo que se mostre necessário, até a próxima vez.

 

Tradução: Marcelo Magnelli

[1] Lacan, J. El seminario, libro 6, El deseo y su interpretación, Buenos Aires, Paidós, 2014, p. 449.

[2] Miller, J.-A. Analytica, Ornicar? N 4, Paris, 1977 pp 16-18.

[3] Bataille, G. El erotismo, Buenos Aires, Tusquets, 2006

[4] Deleuze, G. Presentación de Sacher-Masoch. Lo frío y lo cruel, Buenos Aires, Amorrortu, 2001.

[5] Laurent, E. La psicosis en el texto, “El sujeto psicótico escribe”, Manantial, Buenos Aires, 1990.

[6] Pizarnik, A, Entrevista. http://www.con-versiones.com

[7] Duras, M. Escribir, Buenos Aires, Tusquets, 1993.

[8] Derrida, J. “Políticas del nombre propio”. La filosofía como institución, Buenos Aires, Juan Granica, 1984.

[9] Nietzsche, F. Ecce Homo, Madrid, Alianza, 2011; Así habló Zaratustra, Madrid, Alianza, 2007.

Related Posts

LA SEXUALIDAD EN TIEMPOS DE FEMINISMOS – Gabriela Camaly (EOL)

9 de setembro de 2019

9 de setembro de 2019

  Presento aquí algunas puntuaciones en torno al debate sobre lo femenino para tratar de abrir una conversación posible entre...

Quatre perspectives sur la différence sexuelle – Daniel Roy (ECF)

9 de setembro de 2019

9 de setembro de 2019

  Tous les deux ans, le Comité d’initiative de l’Institut de l’Enfant soumet à Jacques-Alain Miller des propositions de thème...

Mujeres y Vida – O la Maldición de las Criadoras. Por Marie-Hélène Brousse (ECF

13 de agosto de 2019

13 de agosto de 2019

Traducción: María Paz Varela ¿Han visto o escuchado a Kay Ivey? ¡Una mujer vieja y poderosa! Ella es la actual...

Una memoria da campionato – Marco Focchi (SLP)

6 de agosto de 2019

6 de agosto de 2019

Uno dei campi in cui le neuroscienze prediligono esercitarsi è quello della memoria. Dico esercitarsi perché si tratta propriamente di...

Une affaire de corps – Patrick Monribot (ECF))

2 de agosto de 2019

2 de agosto de 2019

« Le réel, (…), c’est le mystère du corps parlant, c’est le mystère de l’inconscient. »[1] La phrase a été...

Por onde anda a “sensibilidade inteligente”? – Marcia Stival Onyszkiewicz (EBP)

7 de julho de 2019

7 de julho de 2019

Por onde anda a “sensibilidade inteligente”[1]? Inicio minha participação no Blog da AMP, salientando ecos extraídos do cotidiano e que...

La “sensibilitée intelligente”, où est-elle ? – Marcia Stival Onyszkiewicz (EBP)

7 de julho de 2019

7 de julho de 2019

La “sensibilitée intelligente”, où est-elle ?[1] Je commence ma participation au blog de l’AMP, en soulignant les échos extraits de...

Pluralisation des ségrégations – Alice Delarue (ECF)

5 de julho de 2019

5 de julho de 2019

Publié sur HebdoBlog La ségrégation, sous ses formes actuelles, concerne de façon brûlante la psychanalyse, du moins celle qui est...

Una carta de amor – Paula Rodríguez Acquarone (EOL)

4 de julho de 2019

4 de julho de 2019

Me pregunté a propósito del título de esta mesa, cuantas versiones del amor habría en el libro Feminismos[2], si uno...

A la pointe de l’érotisme féminin – Anaëlle Lebovits-Quenehen (ECF)

17 de junho de 2019

17 de junho de 2019

Dans son sens courant, l’érotisme relève du désir amoureux, ou plus exactement, de ce qui éveille ce désir. L’érotisme féminin...

La complejidad de la validación científica. Saber y poder – por Gustavo Stiglitz (EOL)

16 de junho de 2019

16 de junho de 2019

Observamos que en general, las legislaciones en salud mental toman a los llamados criterios científicos, como tabla de orientación para...

Dangerous Attraction, politics and religion – by Daniela Affonso (EBP)

13 de junho de 2019

13 de junho de 2019

I’ve always imagined the following scene as one of solemnity. Freud, invited by North-American psychologist Stanley Hall to speak at...

Atração perigosa, política e religião – Daniela Affonso (EBP)

13 de junho de 2019

13 de junho de 2019

TEXTO EM PORTUGUÊS   Sempre imaginei a cena seguinte como um momento solene. Freud, convidado a ir aos Estados Unidos...

All- Inclusive… Language? – by Isolda Alvarez

6 de junho de 2019

6 de junho de 2019

The beginning of this century has brought many changes… we have been catching up with them long time ago. One...

Ordinary psychosis: A creation of language for our times – Véronique Voruz (NLS)

31 de Maio de 2019

31 de Maio de 2019

  Introduction   For this intervention I have chosen to not speak of ordinary psychosis specifically, but to situate the...

Comments
Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.