4 de August de 2021

Eu, o Parceiro e o Amor – Romildo do Rêgo Barros (EBP)

Questão de fundo: Revalorizar o amor: isto quer dizer que o amor algum dia foi valorizado e degradou-se, e é…


Questão de fundo:

Revalorizar o amor: isto quer dizer que o amor algum dia
foi valorizado e degradou-se, e é preciso re-valorizá-lo?
Ou, então, que é preciso encarar o amor sob a ótica
do valor (de uso e de troca), a partir de uma
mudança no seu status?

“Eu o amava. Porque era ele e porque era eu”.

Todos conhecem sem dúvida esta explicação, dada por Michel de Montaigne sobre o porquê da sua grande amizade com Etienne de la Boétie, o autor de Servidão Voluntária. O nosso Chico Buarque, aliás, compôs uma canção baseada diretamente nessa frase de Montaigne.

A resposta de Montaigne me inspirou uma charada: se ele era ele e eu era eu, e os dois eram inteiros, por qual brecha passaria o amor…?

Foram necessários alguns séculos para que Freud, batizando o amor com um novo conceito, Übertragung, a transferência, pudesse matar a charada: haveria alguma coisa entre Montaigne e de la Boétie, sob a forma de uma associação – histórica ou linguística -, que nem era um e nem era o outro, e por isso se amavam. O amor precisa, então, remeter a um terceiro elemento, sob pena de não existir. Se ele existe, é porque vem de um outro lugar… Isto está ligado, naturalmente, ao fundamento maior da psicanálise, que é a postulação de que o sexo humano não tem um objeto adequado.

Com Lacan, vamos aprender que não somente os dois elementos de qualquer encontro não se completam, como também é o fato de não se completarem que é a condição do terceiro como suplência. O “não há relação sexual”, neste sentido, é logicamente anterior e mais abrangente do que a ideia de que os objetos sexuais não são naturalmente adequados.

Além de explicar o amor, a solução da charada também indica que estão aqui as condições para as relações entre o amor e o desejo. O amor, o amor comum, o amor humano, que persegue semblantes e nessa busca faz às vezes sofrer miseravelmente, tem de percorrer um caminho, que é de linguagem, para finalmente consistir, apesar da aparente estabilidade e fixidez dos corpos. E quando consiste, ou é preciso que o sujeito se mantenha na ilusão de ter encontrado o objeto adequado, até onde e até quando isto é possível (a discrepância entre o amor e seu objeto acaba aparecendo, como todos sabemos); ou então um novo amor surgirá na cena do mundo: na experiência amorosa de cada um e como marca cultural. É tarefa essencial da psicanálise, e nisto ela é insubstituível, ajudar no surgimento desse novo amor, e constatar de qual transformação – nos modos de gozar, provavelmente – provém o seu surgimento.

Com o novo amor, teremos conhecido uma revalorização do amor. Não no sentido do resgate de um valor que teria existido nos tempos heroicos e se degradou ao longo do tempo, mas no do aparecimento de um valor inédito, em condições que não existiam antes. O amor continua seu destino de ligação com os semblantes, é próprio dele, mas amarrado a algo diferente da pura circulação dos significantes, que representam um objeto que na verdade não poderá ser localizado.

Função mediadora do amor

Creio que todas as religiões e todas as sabedorias, ou quase todas, antigas e atuais, de alguma maneira anunciaram o amor como a saída para o sofrimento humano. Cada uma delas a seu modo, todas, ou quase todas, reconheceram a função do amor como um Janus – que também tinha a função de mediador – entre a virtude e o pecado.

Lacan, que não era religioso e nem apostava suas fichas nas sabedorias antigas ou novas, definiria essa função mediadora do amor no Seminário sobre a angústia com a frase lapidar amplamente conhecida:

“Só o amor permite ao gozo condescender ao desejo”

A posição do amor como mediador entre gozo e desejo não é exatamente uma localização, é mais uma passagem. O que está localizado, o que constitui a mediana entre gozo e desejo, completa Lacan, não é o amor, mas a angústia, o que é uma constatação clínica bem precisa.

Jacques-Alain Miller nos explica a função mediadora do amor:

« O amor é aqui mediador porque ele desloca ou falsifica o pequeno a, fazendo-o passar para objeto-visada, tornando-o agalma »[1]. 

Em um outro contexto e outra época, Miller havia feito uma afirmação que vai na mesma direção:

“…o amor – nesse caso o amor de transferência – é um desconhecimento, ou talvez melhor, um engano; que no amor há um engano (tese bem conhecida), porque se esconde o objeto a como dejeto.”[2]

Ou seja, o objeto a, nessa falsificação (palavra fundamental para falar do amor, que não é pensável sem ela), na medida em que se esconde como dejeto, desloca-se de detrás do sujeito, onde Lacan o situa como causa do desejo no Seminário 10, para a frente, lugar dos objetos preciosos que o sujeito persegue. Sendo assim, cada objeto precioso, ou cada série metonímica de objetos preciosos, carrega em si a marca da falsificação que lhe deu origem. Penso que é uma maneira simples de entender a função da causa do desejo. O objeto é causa do desejo porque funda a falta que está na raiz do desejo. O objeto, então, e sua falta estrutural, é também o que permite que o desejo esteja sempre em movimento.

Michel Silvestre, em um artigo já antigo sobre o amor, falava do encontro com o desejo a partir, justamente, do necessário fracasso do amor:

«Tomar o corpo do parceiro sexual pedaço por pedaço e perceber que falta, que é um fracasso, serve finalmente para continuar a desejar, a não estar contente consigo mesmo».

Em outra passagem do mesmo artigo, Silvestre tenta responder a uma pergunta que nos cabe a todos fazer: o que podemos esperar da psicanálise, quais as condições necessárias para que subsista?

“Se podemos esperar algo do futuro da psicanálise, (responde Silvestre) é sob a condição de dar-nos por objetivo o de abalar o sujeito na sua relação com a pulsão de morte, e a única maneira de consegui-lo é levar em consideração aquilo que há na análise de amor de transferência. É, me parece, uma das formas de compreender por que Lacan define o amor como dar o que não se tem”[3].

Silvestre propõe nessa frase uma articulação entre três elementos: o amor de transferência como recurso contra a pulsão de morte, ou contra a destruição, e a conhecida definição lacaniana do amor como dar o que não se tem.

A frase de Silvestre remete ainda a algumas questões de grande importância sobre a presença e o papel da psicanálise no mundo: será que o amor de transferência trouxe algo de novo para o amor e para o mundo? E, além de novo, será esse recurso eficaz contra a destruição? E finalmente, será que o amor de transferência é uma forma de revalorização do amor?

Estamos habituados a pensar no amor de transferência como uma variante do amor em geral, com a particularidade de ser aplicada às condições impostas pelo artifício analítico. Em termos práticos: dada uma procura  de cura ou de saber (uma procura posta em ato, digamos assim), surge o amor em consequência. No Seminário XX, Lacan condensou essa questão com uma frase: “aquele a quem eu suponho o saber, eu o amo”.

Pensa-se menos, talvez, que o amor de transferência tem em relação ao amor em geral uma particularidade, que fica aqui como hipótese: é que o objeto do amor de transferência – entendido como aquele que faz trabalhar em uma análise – tem origem no resto, no dejeto da operação que resultou na falsificação do objeto a, enquanto o objeto do amor em geral incide naquilo que apareceu como precioso, por força da falsificação. O amor de transferência seria de certa forma o aproveitamento do dejeto na criação de um novo discurso, como afirmava Miller em “A Salvação pelo Dejetos”.

Em 2004, durante o Congresso da AMP em Comandatuba (BA), Jacques-Alain Miller terminou sua conferência, chamada “Uma fantasia”, com um argumento sobre uma mudança na relação entre o saber e o amor. Mais do que mudança, o termo empregado por Miller é inversão:

“As considerações que tive de saltar conduziam a uma inversão quanto ao fato de dizermos tradicionalmente que o sujeito suposto saber é o pivô da transferência. Parece-me, todavia, que o último Lacan diz outra coisa. Diz ele: a transferência é o pivô do sujeito suposto saber.”[4]

E, um pouco adiante, conclui, e eu concluo com ele:

“Quer dizer que o inconsciente não existe. O inconsciente primário não existe como saber (não há um saber prévio, que seria objeto da procura do analisante). E para que se torne um saber, para fazê-lo existir como saber, é preciso o amor.”[5]

 


[1] Miller, J-A. (2005) “Introdução à leitura do Seminário da angústia de Jacques Lacan”, Opção Lacaniana, n.43. São Paulo: Edições Eolia, p. 7-91

[2] “Uma conversa sobre o amor”, em Opção Lacaniana online nova série Ano 1 • Número 2 • Julho 2010 •

[3] Silvestre, M.: “Sur l’Amour”, em Demain la Psychanalyse, p. 303. “Si nous pouvons espérer en l’avenir de la psychanalyse, c’est à condition de nous donner pour objectif d’ébranler le sujet dans son rapport à la pulsion de mort, et le seul moyen d’y parvenir est de tenir compte de ce qu’il y a dans l’analyse d’amour de transfert. C’est, me semble-t-il, l’une des façons de comprendre pourquoi Lacan définit l’amour comme donner ce qu’on n’a pas….”. A tradução em português é minha.

[4].Miller, J.A,: ”Uma Fantasia”.

[5].Miller, J.-A.: ibidem.

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