6 de August de 2020

Falo, paranoia e bricolagem ( segunda parte) – Marcus André Vieira (EBP)

(ou Notas de psicanálise, sexo e política, segunda parte) A equação falocêntrica é a superposição pênis e falo, como uma…


(ou Notas de psicanálise, sexo e política, segunda parte)

A equação falocêntrica é a superposição pênis e falo, como uma só e mesma entidade, garantida pela evocação de um terceiro elemento: a natureza, a biologia, ou a bíblia. Seria da natureza do homem ter acesso direto ao poder e ao gozar e da mulher um acesso indireto e seria da natureza das coisas que só houvesse esses dois tipos de formas de vida sexuada, o masculino e o feminino.

Nos últimos tempos o falocentrismo foi seriamente abalado. A evidente ressurgência de discursos radicais visando um poder fálico em todo mundo parece desmentir esse abalo. Ela não poderia atestar, como propõe o psicanalista E. Laurent, exatamente uma reação a ele? Nesse sentido, ela ratifica que houve abalo e justificaria amplamente o termo reacionário, no caso do Brasil, como exigência embrutecida de restauração da ordem fálica, hoje no poder.

Como ficam falo, falocentrismo, democracia e a psicanálise nesse contexto?

Seguem mais cinco proposições que completam nossa lista de roteiro notas para um ensaio de Psicanálise, sexo e política, iniciadas anteriormente.

  1. Há vida fora da partilha fálica do prazer e do poder

Começam a explodir gêneros, composições novas. Em vez de “sim” ou “não”, distribuindo a falta de dois modos complementares, surgem explorações, variações, combinações. Em lugar de um poder central excluindo os ininteligíveis para as margens e legislando sobre a vida, uma galáxia de particularidades de baixa coesão, instáveis, tensionadas, ganham cada vez mais expressão no tecido sexual e social. Essa descrição, se transposta para um plano mais geral, talvez pudesse simplesmente ser chamada de democracia radical, como propuseram Laclau e Mouffe. Nesse caso, as identidades e suas novas composições precisarão contar com contratos e acordos para coexistirem e para definirem consensos ou hegemonias, pois fundam uniões mais instáveis que estáveis.

  1. O gozo do falo deixa de ser negatividade e torna-se paranoide

Dada essa explosão de galáxias e tribos, a tribo fálica poderia ter ficado como apenas uma entre outras, o falo seria apenas uma possibilidade de gozo entre outras, com todo seu valor. Não foi o que aconteceu. Os crentes do falo mudaram de status. Antes, eram cômicos, porque de alguma maneira, aqui e ali, via-se como nem tudo da vida podia ser recoberto, saturado pelo falo. É o que desenvolve Lacan em seu Seminário 5 com Molière e Genet.

Um falo em permanente ereção fazia rir, agora não. Reunindo-se ao mais imaginário da religião (Deus acima de todos) e à boataria das redes, nessa inflação imaginária dobrada, espalha-se um regime de crença que reitera uma fé fálica que só se entende quando abordada a partir do que Lacan desenvolveu sobre a psicose. Basta lembrar como é difícil encontrar sujeitos divididos em tempos tão polarizados, especialmente no tempo das eleições. Como entender aquela certeza inabalável diante das mais evidentes evidências, irrefutável, senão assim?

Diz-se que se trata de uma recusa da diferença. É dizer pouco, pois seria preciso dizer qual diferença é recusada. Melhor afirmar que é uma recusa de tudo o que não for inteligível, tudo o que é não-lugar, que é sem utilidade direta. Não se trata de excluir alguém, de jogá-lo no lixo de um regime universal, de um “Nós, o Todo, menos ele”. Trata-se mais de um “Tudo o que não seja nós, não existe”. Nesse sentido, não é uma recusa, mas uma decisão de eliminação, de extermínio.

  1. Uma análise vai na contramão da falicização do ego

Quem precisa de identidade estável é o ego. A cultura falocêntrica propõe duas formas básicas para ela. Em sua modalidade democrática, eurocêntrica, tem proposto algumas outras mais (57 gêneros no facebook americano, por exemplo). Seja como for, do ponto de vista de Freud, haverá sempre uma identidade principal sustentando a coesão do eu. Freud nunca propôs que ela devesse ser necessariamente fálica. O essencial é que o analista trabalhe com o inconsciente, reino de fixações libidinais polimorfas, sem gênero. Uma análise é se expor à multiplicidade libinal do inconsciente para reconfigurar a unidade do ego. No entanto, quando não há identidade que tenha lugar no Outro, como no caso do negro no Brasil, promover a desidentificação pode ser o pior. Alguma visibilidade precisa ser conquistada a partir das coisas invisíveis do inconsciente.

  1. Anita Steckel’s Wild, Phallic Paintings

    Uma análise anda melhor em meio à diversidade.

Uma análise floresce, nos termos de Lacan no Seminário 11, na vigência da “diferença absoluta”. Não de uma diferença relativa, entre graus de melanina ou de estrogênio e testosterona, mas da própria ideia de que há que haver diferenças. A psicanálise está do lado da diversidade porque lida com as múltiplas fixações libidinais que constituem o inconsciente, do sexual como lugar da inscrição do múltiplo, polimorfo, variante, que Lacan formalizou como nãotodo. Há um erotismo do nãotodo? Do que não se regula pelo falo? Sim! É esse que promove o contágio que sustenta a psicanálise, como peste, até hoje. A psicanálise não é conquistadora, mas contagiante.

  1. A psicanálise está, por razões estruturais, do lado da democracia

Não é obrigatório para que uma análise aconteça o estado democrático de direito, de um “para todos” da constituição e de um “ninguém está acima da constituição” (com Deus só correndo por fora). Sabemos que a psicanálise já sobreviveu a várias ditaduras. No entanto, uma análise que não tome a descrição freudiana da sexuação fálica como ideal floresce melhor em um meio democrático, já que ela é uma espécie de laboratório de democracia no plano individual.[i] Tensões, conflitos, pactuações, não é o que ocorre entre as pulsões do inconsciente e o eu no âmbito do aparato psíquico?

Bricolagem

Nessa clínica sairão, do saco sem fundo do inconsciente, lembranças inesperadas, fragmentos de sensações e sentimentos que se compõem ao modo da bricolagem, ou na expressão de Lacan, de uma colagem surrealista, forjando uma coesão artesanal em lugar do enlace “de fábrica” patriarcal. É uma clínica do enlace, do sinthoma, da constelação de uns sozinhos. Ela inclui não apenas montagens, gambiarras e geringonças mais ou menos artísticas, mas também nomeação – de um dizer que nomeia o não-existente, que a bricolagem traz ao mundo.

Resta querer que nossos filhos possam andar à rua, que seus desejos possam se juntar com outros, que o desejo de Freud nos leve além da massa de paranoia para um tempo em que o ego aceite a contingencia do desejo em vez de querer fixá-la. Precisamos contar com os quereres que cruzam a cidade. Eles seguem em desassossego, promovem ocupações, movimentos slow, saraus, intervenções, gozos trans, se encantam com os ininteligíveis, ignoram os likes, vibram com a comunidade da comunidade sem exército, dão artes de sobrevida a nossos jovens negros em tempos de genocídio. Por que não teria a psicanálise lugar nestes espaços?

[i] Agradeço a Sidi Askofaré pela precisa formulação em discussão no XIII Simpósio de Psicanálise do Depto de Psicanálise da UERJ : A Psicanálise e os Paradoxos da Política da Diferença (https://www.cepuerj.uerj.br/cursos2.php?tipo=eventos&curso=S04999&ano=2018)

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