22 de September de 2021

MULHERES E DISCURSOS – Marie-Hélène Brousse

Este livro dá ao leitor mostras das razões por que Marie-Hélène Brousse se tem consolidado como referência internacional, reconhecida para…


Este livro dá ao leitor mostras das razões por que Marie-Hélène Brousse se tem consolidado como referência internacional, reconhecida para além do Campo freudiano, no qual se inscreve, e fora do próprio campo da psica- nálise, em que atua há muitos anos como psicanalista em Paris. O rigor e a originalidade do seu ensino, presentes nestes escritos, são marcas de um estilo singular que enfrenta os paradoxos da transmissão da própria psicanálise.

Mulheres e discursos revela o alcance do seu vasto repertório, afinado aos tempos atuais, mas sem se restringir ao tema, sempre atual e candente, das mulheres e do feminino, que ex-siste a despeito dos deslocamentos dos mo- vimentos feministas ocorridos em nossa civilização. Ao iluminar esse tema, a autora ensina, não somente ao psicanalista, como estar à altura da subjetividade da época e conhecer “a espiral” que nos arrasta no século xxi.

Em cada capítulo, o leitor poderá constatar que se trata de escritos sobre a época, nos quais a psicanalista tece sua leitura dos impasses que assolam o sujeito contemporâneo. E por estar em jogo, sobretudo, uma questão de leitura, ela discorre sobre o que significa ler em psicanálise, extraindo das passagens de Jacques Lacan pelos filósofos um saber sobre a posição do leitor que convém ao psicanalista. Como proceder na leitura, que é sempre subjetiva e implica a transferência, seja esta positiva ou negativa, esclarecida ou negada?

A arte de saber ler a época requer, de entrada, abandonar a utopia de que a psicanálise seja uma visão de mundo, a Weltanschauung a que Freud fazia objeção. Não há o mundo, senão discursos, assim como não há uma ontolo- gia da mulher, senão mulheres como um fato de linguagem. Mulheres, não sem discursos. São as lições de Lacan extraídas da experiência psicanalítica sobre o sujeito da linguagem, carente em sua falta a ser e sujeitado ao discurso que o governa.

7

Marie-Hélène Brousse serve-se assim da força epistêmica da “disciplina de reviramento”, da psicanálise como o avesso do discurso do mestre, que evidencia a potência do significante regendo a vida de um sujeito, e abraça a incessante tarefa, de a a z, bem como necessária ao psicanalista, de recenseamento do que há de novo no discurso do mestre contemporâneo.

Num mundo sem centro, no qual a segregação se conjuga no plural, produzindo novas angústias e novos sintomas, e da ciência aliada ao império da estatística, que põem em marcha significantes mestres inéditos, modificando, entre tantas outras experiências, as da maternidade e da paternidade, não sem consequências para os “filhos da ciência”, estes novos fetiches do consumo, a psicanálise está em condições de responder aos impasses contemporâneos em proliferação. É o que a autora demonstra com afinco, valendo-se da psicanálise como convém, “realista no sentido do real”, segundo a leitura que faz de Jacques-Alain Miller, ou seja, tomando o discurso ao pé da letra, na sua materialidade depositada no sintoma e despojada de todo sentido religioso e saudosista.

Aqui, como não poderia deixar de ser, a arte de saber ler conjuga-se com a arte de bem dizer própria à psicanálise,1 o que a autora, certamente tomada por sua própria “paixão crítica”, explora com vigor capítulo após capítulo. Com generosidade, traz vinhetas de sua clínica, mas também fala de sua posição analisante, à qual sempre volta, de acordo com os princípios éticos da psicanálise, suficientemente advertida dos restos sintomáticos que exigem do psicanalista a supervisão constante da sua própria posição subjetiva.

Na tarefa contínua de bem dizer um modo de gozo singular que perma- nece, o feminino que ex-siste apesar das identidades que não repousam ali onde se pretendem, Marie-Hélène Brousse conta suas anedotas e recolhe um saber vivo produzido no lugar vazio recortado entre a causa analítica e as tantas disciplinas e temas atuais sobre os quais se debruça.

Nas passagens sobre as mulheres, que não escapam à querela do gênero e das identidades, a autora elucida a complexidade implicada na noção de

“corpo de mulher”, abrindo vias de investigação delineadas a partir das incidências das mutações do discurso do mestre contemporâneo numa clínica por construir, e que incluem as novas formas de homossexualidades femininas e as versões atualizadas da histeria nos tempos do uom.

8 mulheres e discursos

A autora discorre, ainda, sobre as lágrimas e o sangue, esses “fluidos femi- ninos por excelência”, entre outros tantos objetos das mulheres, como aqueles que inspiram o dom do amor, os loucamente desejados, os escondidos, mas também os perdidos, os invejados e até os arrebatados, brindando o leitor com o brilho mágico da lantejoula em sua fina análise dos objetos libidinais que os ditames da moda sabem explorar. Mas não sem a localização de um objeto precioso, estranho e inclusive angustiante em causa no cerne do funcionamento libidinal do sujeito, o objeto a, que o captura ali onde, mesmo na “sociedade da transparência” e dos desvarios da identidade, ele não se reconhece.

Que a porta de entrada para o leitor seja aquela que o convoque a pôr algo de si nas passagens das quais, certamente, poderá extrair um ensino à altura do legado de Jacques Lacan.

Maria Josefina Sota Fuentes

1 Cf. miller, Jacques-Alain. “Ler um sintoma” (2011). Disponível em https://ebp.org.br/sp/ ler-um-sintoma/

Related Posts

¿Somos todos religiosos? – Responsable: Leonardo Gorostiza (EOL)

1 de setembro de 2021

1 de setembro de 2021

  Prólogo   Fernando Vitale   El 24 de noviembre de 1975 Lacan -justamente ante una audiencia constituida por jóvenes...

ARREGLOS FÓBICOS CUERPO, GOCE Y ESPACIO – Ana Cecilia González (EOL)

18 de agosto de 2021

18 de agosto de 2021

  via Ruth Gorenberg INTRODUCCIÓN   Salir a pasear La fobia es asunto de cuerpo La fobia según el psicoanálisis:...

BITÁCORA LACANIANA N.9

4 de agosto de 2021

4 de agosto de 2021

Presentación     Lacan indicó lo irrenunciable que es para cada analista unir a su horizonte la subjetividad de su...

GLIFOS – REVISTA VIRTUAL DE LA NEL CIUDAD DE MEXICO #16

30 de julho de 2021

30 de julho de 2021

EDITORIAL enlace para su consulta en línea: nelmexico.org/wp-content/uploads/2021/07/glifos-16.pdf Avanzamos dentro de un tiempo que es como un mar turbulento y...

La Cause du désir N° 108 – Pas d’écoute sans interprétation

7 de julho de 2021

7 de julho de 2021

ÉDITORIAL Laura Sokolowsky     Lors d’une conférence de presse à Rome, en 1974, Lacan lançait à l’auditoire : «...

Más allá del inconsciente – Revista LACANIANA 29

5 de julho de 2021

5 de julho de 2021

via Ruth Gorenberg   Colegas y amigos, queremos presentarles este nuevo número de Lacaniana, publicación de la EOL. Esta vez...

“The Art of Singularities” – The Lacanian Review No 11

30 de junho de 2021

30 de junho de 2021

  BRIEF The Lacanian Review No. 11 explores what can be said about the art of singularities in the experience...

La Cause du désir n° 107 « Yad’lun »

12 de maio de 2021

12 de maio de 2021

COMMANDEZ SUR  ecf-echoppe EDITORIAL   Ce numéro 107 de la Cause du désir a pour titre une jaculation de Jacques...

RETOQUECITOS – Freud sin principio de placer – Gerardo Arenas (EOL)

5 de abril de 2021

5 de abril de 2021

Estudiar las consecuencias de erradicar de la doctrina freudiana el principio de placer implica correr ciertos riesgos. La conveniencia de...

ORNICAR? – Revue du Champ Freudien

5 de abril de 2021

5 de abril de 2021

Pourquoi « Les bas-fonds » ? Disons-le d’emblée, un tel titre a de quoi surprendre le lecteur d’Ornicar? La topographie...

GLIFOS N.15 – REVISTA VIRTUAL DE LA NEL CIUDAD DE MÉXICO

5 de abril de 2021

5 de abril de 2021

Editorial El psicoanálisis produce transferencias en la cultura, un interés vivo que aproxima a muchos en la búsqueda —en términos...

El mundo pos-Covid. Entre la presencia y lo virtual – José Ramón Ubieto (ELP)

17 de março de 2021

17 de março de 2021

Conversación con José Ramón Ubieto sobre su último libro[1]     Tenemos la suerte de hablar en primera mano con...

Nuevas formas de malestar en la cultura – Vilma Coccoz (ELP)

13 de fevereiro de 2021

13 de fevereiro de 2021

  publicando en libreria Muga Invitamos a conversar a Vilma Coccoz en librería Muga sobre su último libro Nuevas formas...

Foucault • Duby • Dumézil Changeux • Thom  – Cinq grands entretiens au Champ freudien

8 de fevereiro de 2021

8 de fevereiro de 2021

  « la découverte de Freud est celle du champ des incidences, en la nature de l’homme, de ses relations à...

Comments
Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.