11 de November de 2019

MULHERES E DISCURSOS – Marie-Hélène Brousse

Este livro dá ao leitor mostras das razões por que Marie-Hélène Brousse se tem consolidado como referência internacional, reconhecida para…


Este livro dá ao leitor mostras das razões por que Marie-Hélène Brousse se tem consolidado como referência internacional, reconhecida para além do Campo freudiano, no qual se inscreve, e fora do próprio campo da psica- nálise, em que atua há muitos anos como psicanalista em Paris. O rigor e a originalidade do seu ensino, presentes nestes escritos, são marcas de um estilo singular que enfrenta os paradoxos da transmissão da própria psicanálise.

Mulheres e discursos revela o alcance do seu vasto repertório, afinado aos tempos atuais, mas sem se restringir ao tema, sempre atual e candente, das mulheres e do feminino, que ex-siste a despeito dos deslocamentos dos mo- vimentos feministas ocorridos em nossa civilização. Ao iluminar esse tema, a autora ensina, não somente ao psicanalista, como estar à altura da subjetividade da época e conhecer “a espiral” que nos arrasta no século xxi.

Em cada capítulo, o leitor poderá constatar que se trata de escritos sobre a época, nos quais a psicanalista tece sua leitura dos impasses que assolam o sujeito contemporâneo. E por estar em jogo, sobretudo, uma questão de leitura, ela discorre sobre o que significa ler em psicanálise, extraindo das passagens de Jacques Lacan pelos filósofos um saber sobre a posição do leitor que convém ao psicanalista. Como proceder na leitura, que é sempre subjetiva e implica a transferência, seja esta positiva ou negativa, esclarecida ou negada?

A arte de saber ler a época requer, de entrada, abandonar a utopia de que a psicanálise seja uma visão de mundo, a Weltanschauung a que Freud fazia objeção. Não há o mundo, senão discursos, assim como não há uma ontolo- gia da mulher, senão mulheres como um fato de linguagem. Mulheres, não sem discursos. São as lições de Lacan extraídas da experiência psicanalítica sobre o sujeito da linguagem, carente em sua falta a ser e sujeitado ao discurso que o governa.

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Marie-Hélène Brousse serve-se assim da força epistêmica da “disciplina de reviramento”, da psicanálise como o avesso do discurso do mestre, que evidencia a potência do significante regendo a vida de um sujeito, e abraça a incessante tarefa, de a a z, bem como necessária ao psicanalista, de recenseamento do que há de novo no discurso do mestre contemporâneo.

Num mundo sem centro, no qual a segregação se conjuga no plural, produzindo novas angústias e novos sintomas, e da ciência aliada ao império da estatística, que põem em marcha significantes mestres inéditos, modificando, entre tantas outras experiências, as da maternidade e da paternidade, não sem consequências para os “filhos da ciência”, estes novos fetiches do consumo, a psicanálise está em condições de responder aos impasses contemporâneos em proliferação. É o que a autora demonstra com afinco, valendo-se da psicanálise como convém, “realista no sentido do real”, segundo a leitura que faz de Jacques-Alain Miller, ou seja, tomando o discurso ao pé da letra, na sua materialidade depositada no sintoma e despojada de todo sentido religioso e saudosista.

Aqui, como não poderia deixar de ser, a arte de saber ler conjuga-se com a arte de bem dizer própria à psicanálise,1 o que a autora, certamente tomada por sua própria “paixão crítica”, explora com vigor capítulo após capítulo. Com generosidade, traz vinhetas de sua clínica, mas também fala de sua posição analisante, à qual sempre volta, de acordo com os princípios éticos da psicanálise, suficientemente advertida dos restos sintomáticos que exigem do psicanalista a supervisão constante da sua própria posição subjetiva.

Na tarefa contínua de bem dizer um modo de gozo singular que perma- nece, o feminino que ex-siste apesar das identidades que não repousam ali onde se pretendem, Marie-Hélène Brousse conta suas anedotas e recolhe um saber vivo produzido no lugar vazio recortado entre a causa analítica e as tantas disciplinas e temas atuais sobre os quais se debruça.

Nas passagens sobre as mulheres, que não escapam à querela do gênero e das identidades, a autora elucida a complexidade implicada na noção de

“corpo de mulher”, abrindo vias de investigação delineadas a partir das incidências das mutações do discurso do mestre contemporâneo numa clínica por construir, e que incluem as novas formas de homossexualidades femininas e as versões atualizadas da histeria nos tempos do uom.

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A autora discorre, ainda, sobre as lágrimas e o sangue, esses “fluidos femi- ninos por excelência”, entre outros tantos objetos das mulheres, como aqueles que inspiram o dom do amor, os loucamente desejados, os escondidos, mas também os perdidos, os invejados e até os arrebatados, brindando o leitor com o brilho mágico da lantejoula em sua fina análise dos objetos libidinais que os ditames da moda sabem explorar. Mas não sem a localização de um objeto precioso, estranho e inclusive angustiante em causa no cerne do funcionamento libidinal do sujeito, o objeto a, que o captura ali onde, mesmo na “sociedade da transparência” e dos desvarios da identidade, ele não se reconhece.

Que a porta de entrada para o leitor seja aquela que o convoque a pôr algo de si nas passagens das quais, certamente, poderá extrair um ensino à altura do legado de Jacques Lacan.

Maria Josefina Sota Fuentes

1 Cf. miller, Jacques-Alain. “Ler um sintoma” (2011). Disponível em https://ebp.org.br/sp/ ler-um-sintoma/

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