20 de April de 2019

Nenhum pai para ver que estou queimando – Cristina Drummond (EBP)

Texto extraído do Boletim OCI 2 Para ler o boletim na íntegra clique aqui: ix.enapol.org/boletim-oci-2 Lacan dizia, no início dos…


Texto extraído do Boletim OCI 2

Para ler o boletim na íntegra clique aqui: ix.enapol.org/boletim-oci-2

Lacan dizia, no início dos anos setenta, que o saber, em sua forma não sabida, é difícil de ser passado. O discurso analítico que se ocupa dos desvarios do gozo no momento atual da civilização nos leva a ter que nos debruçar sobre o que vemos ocorrer, com o objetivo de aprendermos a ler o que se passa e colher as respostas dos sujeitos. Essa leitura é o que permite nos orientarmos no real de nossa clínica, clínica na qual dar lugar à palavra não é nada simples.

Cristina Drummond (EBP)

Nesse sentido, me pareceu fundamental tomarmos o incêndio de grandes proporções que atingiu o Ninho do Urubu, centro de treinamento do Flamengo, em Vargem Grande, Zona Oeste do Rio de Janeiro, no início de fevereiro. Havia 26 jovens dormindo no alojamento. Destes, morreram dez jogadores da base do clube, de idade entre 14 e 16 anos, e três ficaram feridos em estado grave. Esse incêndio deixou às claras a divisão discriminatória entre os alojamentos dos profissionais, que são confortáveis e seguros, e aqueles dos garotos, que permaneciam em containers precários. Essa solução segregacionista, que revela uma desigualdade que parecia encoberta pela ideia da oportunidade, só pode ser vista a partir desse retrato da realidade que em nada se assemelha ao paraíso prometido. O gozo racista que exclui, que não reconstitui um Outro e que faz suas exigências se deixa ver nas fotos do ocorrido.

Esse incêndio que nos deixa indignados nos evidencia o que Lacan nos ensinou a respeito da criança: ela vem ao mundo na posição de objeto, e sua face de dejeto deverá ser recoberta pelo desejo daqueles que a acolhem. Cada um de nós, diz ele no Seminário 17, é “determinado primeiro como objeto a”¹, na medida em que somos “todos abortos do que foi, para aqueles que (n)os engendraram, causa do desejo”².

Em nosso país, a perspectiva de se tornar um jogador de futebol de prestígio e com a possibilidade de sair de uma condição econômica precária é um sonho para muitos. Ao estilo da pequena miss Sunshine, os jovens encontrados por olheiros de clubes, que passam a ser os detentores de seus passes, são convocados a se inscreverem nessa carreira promissora. Essa perspectiva se impõe aos adolescentes e os convida a ultrapassar suas inibições e limites, propondo-lhes um gozo que se apresenta de modo feroz e imperativo. Sobretudo para esses jovens atletas talentosos, vindos das periferias pobres e sendo quase todos eles negros. Se a aposta é a de oferecer a esses meninos uma saída que não seja pela droga, pela morte ou pela degradação, o ocorrido nos deixa bastante descrentes dela.

Se a promessa é a de uma relação com o desejo e o fálico, o que se apresenta é a criança, tal como Lacan diz em suas “Duas notas sobre a criança”³, realizando a presença do objeto pulsional no fantasma, tomada não enquanto ideal, mas no gozo, seu e de seus pais.

Não houve pai para ver que os filhos estavam queimando e não houve despertar. O que se apresenta como descaso diante da vida não se inscreve num discurso organizado por significantes, mas como pura pulsão de morte que devora os sujeitos mal saídos da infância e faz deles oferendas à insaciável gulodice de um supereu desenfreado.

A outra face desse gozo capitalista decorrente do acesso aos bens de consumo, sua face mortífera, é o que surge nessa situação grave e terrível do incêndio no Flamengo: o pouco valor da vida dos jovens, a falta de perspectiva e como o Outro social os trata como objetos descartáveis. Enquanto o clube receberá este ano 700 milhões de patrocínio do Banco do Brasil, ele negocia o valor a ser pago às famílias das vítimas.

Vivemos num país onde o estudo é a primeira fonte de ascensão social, e a segunda, surpreendentemente, é o roubo. Como sustentar nossa aposta na palavra e no desejo quando nos vemos diante de incêndios que não temos como apagar?

Notas

¹ LACAN, J. O Seminário, livro 17: O avesso da psicanálise, Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 1994, p.152.

² _______ Ibid., p. 170.

³ LACAN, J. “Duas nota sobre a criança” In: Opção Lacaniana. Revista Brasileira Internacional de Psicanálise. São Paulo:
Edições Eolia. Abril 1998.

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