15 de December de 2019

Por onde anda a “sensibilidade inteligente”? – Marcia Stival Onyszkiewicz (EBP)

Por onde anda a “sensibilidade inteligente”[1]? Inicio minha participação no Blog da AMP, salientando ecos extraídos do cotidiano e que…


Por onde anda a “sensibilidade inteligente”[1]?

Inicio minha participação no Blog da AMP, salientando ecos extraídos do cotidiano e que me tocam intimamente a ponto de escrever. O recorte que hoje trago, advém de reflexões e de leituras sobre a situação do Brasil, a partir da psicanálise de orientação lacaniana e do que posso aprender com a arte.

Reconhecido pelas belezas naturais e favorecido pela abundância de recursos energéticos e ambientais, o Brasil tem sido mundialmente destacado por outras facetas. Nas diferentes mídias veiculam-se os inúmeros casos de corrupção, as constantes quedas no crescimento da economia, o alto índice de desemprego, as devastações no ecossistema, os fatos permeados de violência … que explicitam uma realidade impactante. Assim, edifica-se um cenário que nos remete aos campos político, social, ambiental e econômico, com evidências que instigam reflexões. Isto porque, as dimensões e repetições dos fatos favorecem que o significante “crise” inscreva-se como um dos mais presentes, nas expressões dos brasileiros.

Recorro à etimologia para destacar que “crise” vem do latim (crisis) e refere-se a um “ momento em que se deve decidir se um assunto ou o seguimento de uma ação deve ser levado adiante, alterado ou interrompido; momento crítico ou decisivo.”[2]

Então, se o significante “crise” clama por verificações e mudanças, vale considerar  que muitos dos movimentos que visam decifrar e até solucionar os impasses da contemporaneidade, recorrem ao sentido. Nesta direção, deixar-se tapear pelo pai é um caminho inevitável. Trata-se de uma busca incessante pelas respostas que as tecnociências e as manifestações capitalistas proporcionam. Ganham espaços os aconselhamentos terapêuticos, as promessas veiculadas pelo marketing e as informações online que mobilizam uma grande quantidade de pessoas e direcionam posicionamentos, marcando que “a maior necessidade da espécie humana é que haja um Outro do Outro. É aquele a quem chamamos geralmente Deus…”[3].

Esta busca incessante por soluções demandadas ao novo mestre, não impede que cada um depare-se continuamente com as contingências, promovendo o encontro com o que não tem lei e diante do que não se tem palavras. Assim, considero que a desorientação atrelada às contínuas desconexões, favorecem a presença do significante “crise” de modo ilimitado na atualidade. E como consequência, verificamos muitas pessoas colocando-se como objeto, debatendo-se diante do real, tentando agarrar-se nas promessas encantadoras.

Deste modo, a realidade impactante, a crise ininterrupta em vários âmbitos e a busca de sentido, nos diz de uma época em que a contabilização dá as cartas do jogo, aliada em algumas circunstâncias a movimentos que visam revolução.  Como resultado, cada vez mais diversificadas são as expressões de desorientação.

 “O esforço de poesia é tudo o que nos resta quando o ‘ainda um esforço para sermos revolucionários’ foi retirado de cartaz. Por isso mesmo o esforço de poesia parece suspeito de ser o eco da revolução.” [4]

Neste esforço, o que se leva em conta é a existência de um movimento para tocar no dizer. Assim, os acontecimentos poderiam reavivar a angústia e, para alguns, fazer de cada “tremor”[5]um período que vai além das queixas? Esta desestabilização a partir do que o contexto evidencia ao mobilizar a subjetividade, possibilita a verificação dos limites dos discursos da ciência e do capitalismo?

Eis um encaminhamento que considera a ruptura, deslocada do imperativo de tudo recobrir e solucionar. Com isso, “ se as pessoas denunciam o que chamam de intelectualização, é simplesmente por estarem habituadas, por experiência, a perceber que de modo algum é necessário e de modo algum é suficiente compreender algo para que este se modifique.”[6]

 Mas se o recomeço torna-se importante, principalmente em tempos difíceis, que seja guiado pela sensibilidade inteligente, como retrata Clarice Lispector. Na contramão da inteligência pura, da qual também a escritora se beneficiou, a sensibilidade inteligente a guiou, lhe foi importante para viver e entender os outros. Seria esta sensibilidade inteligente uma disponibilidade para estar na vida, sem esperar nada dela, guiada pela condição de que cada momento é único e passível de invenções?

Minha aposta segue por esta perspectiva, que leva a refletir se estaria aí uma das grandes contribuições dos artistas para os psicanalistas: estar na vida, construindo-a a cada dia. Isso pressupõe tomadas de decisões, interrupções e mudanças. Uma perspectiva que torna possível o psicanalista acompanhar seu tempo.  Afinal, o “analista não é indiferente, ele não é aquele que não escolhe, pois tem uma ética. O simples fato de Lacan ter acreditado poder desenvolver uma ética da psicanálise comporta que há uma escolha na própria posição do analista. Notemos que a palavra ‘ética’ não é a palavra ‘moral’ e ela inclui, de bom grado, a política.”[7]

[1]N.A.: Sensibilidade inteligente é o nome de uma crônica de Clarice Lispector. In: LISPECTOR, Clarice. Aprendendo a viver. Rio de Janeiro: editora Rocco, 2004, p.

[2]Dicionário Michaelis online. In: http://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/crise/

[3]LACAN, J. O Seminário, livro XXIII: o sinthoma.Rio de janeiro: Jorge Zahar Editor, 2007, p. 124

[4]MILLER, J.-A. Curso Um esforço de poesia.Décima nona lição, 11 de junho de 2003).

[5]_________ El ultimíssimo Lacan  – Los cursos psicoanalíticos de Jacques-Alain Miller. Buenos Aires: Paidós, 2014, p. 208.

[6]—————. Falando com as paredes. Rio de Janeiro: J. Zahar editor, 2011,  p.36

[7]—————– Ponto de Basta In: Opção Lacaniana – Revista Brasileira Internacional de Psicanálise. São Paulo: edições Eolia, julho 2018, p. 31.

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