13 de July de 2020

Por onde andarão as histéricas de outrora? – Livro de Márcia Rosa (EBP)

A histérica na época de uma-equivocação Prefácio de Fabian Fajnwaks Esqueça o que tu sabes, querido leitor, sobre a histeria….


A histérica na época de uma-equivocação

Prefácio de Fabian Fajnwaks

Márcia Rosa

Esqueça o que tu sabes, querido leitor, sobre a histeria. Tu que acreditavas que a histérica fosse a melhor parceira para conduzi-lo pela mão aos segredos do desejo: à relação ao Outro; à metáfora e à metonímia; ao desejo insatisfeito; ao traço unário. Tu aprendestes isso lendo Freud, acompanhando as reviravoltas das histéricas de outro tempo, «essas mulheres maravilhosas que foram as Anna O., as Emmy von N.», e a essa lista, que Lacan faz em 26 de fevereiro em sua celébre «Conferência de Bruxelas», poderíamos acrescentar as «Elizabeth von R., as Dora, as jovens homossexuais». Bem, tu  aprendestes isso porque Freud e Lacan assim te ensinaram. Tu não te equivocastes, mas este livro de Márcia Rosa te leva mais além, ao que seguramente não sabias sobre a histeria. Ao que Freud não sabia e àquilo com o qual Lacan será confrontado a partir do momento em que inaugura a última e a ultimíssima parte de seu ensino, abordando o campo do gozo, ao qual denominou, no Avesso da Psicanálise, o«Campo Lacaniano».

O Complexo de Édipo, o Falo, as identificações são os elementos com os quais Freud vestiu a histérica: foi o que ele encontrou, o que ele pôde inventar. Não se trata, a bem da verdade, de renegar isso, mas, assim fazendo, Freud ficou absorvido com o Pai da histérica e o simbólico. Ele não pôde vislumbrar o real que estava em jogo para essas mulheres magníficas. Foi necessário que Lacan abrisse a perspectiva do «mais-além do Édipo» e que ele matematizasse, com as fórmulas da lógica, um gozo que escapa ao falo, para ressituar o lugar do Pai como semblante e o falo como significante que captura só uma parte do gozo.

Cristóvão Colombo chegou às ilhas do Caribe e acreditava ter chegado às Índias; navegou um pouco mais e acreditou estar em Cipango. Acreditando haver chegado ao Oriente, perdeu-se no «mais-aquém» do novo continente. Freud navegou no dark continentda feminilidade e convocou o Outro das «representações inconscientes», o Pai simbólico, para localizar as identificações; convocou o Falo para localizar o gozo que habitava as histéricas. Mas, operando desse modo, perdeu-se o «mais-além» do gozo que somente essas ilhas capturavam, o verdadeirodark continentda feminilidade.

O último ensino de Jacques Lacan, sobre o qual se apoia Márcia Rosa aqui, permite abrir o horizonte que esses significantes obturavam e reler, sob um efeito de après-coup, de retorno, o que essas histéricas maravilhosas de outrora verdadeiramente diziam a respeito do gozo, a respeito do sintoma, lido não mais como significação do Outro, mas como «acontecimento de corpo», acontecimento desligado do simbólico e ancorado no real. O Inconsciente aí é entendido não mais como «discurso do Outro» e «re-envio de um significante a outro», mas como «Uma-equivocação».

Posto isso, o que se torna a histeria abordada a partir da perspectiva que inaugura «Joyce, o sinthoma»? Quando já não é o «Inconsciente estruturado como uma linguagem», o que se deduz dos hieróglifos que elas oferecem ao deciframento, mas o Inconsciente como hiância fundamental, aquele no qual «o espaço de um lapso já não tem nenhum alcance de sentido ou de interpretação»? Quando não é mais tanto o saber aquilo ao que elas, essas mulheres maravilhosas de outrora, permitem aceder, já que o saber se vê reduzido a um estatuto de ficção, de verdade mentirosa com respeito ao real que a alínguaarticula? Essas são algumas perguntas às quais a autora responde neste ensaio, que sintoniza a questão da histeria a partir dos últimos desenvolvimentos da teoria lacaniana.

Por acaso a histeria mudou com o século XXI, desde aquelas mulheres maravilhosas? Sim. As de hoje são menos metafísicas, já que Lacan nos diz na «Conferência de Bruxelas», que serve de pano de fundo ao trabalho de Márcia Rosa, que «a metafísica é a histeria»[1]. Elas já não se historisterizam, e a decadência da ordem simbólica lhes impôs uma pobreza simbólica que as aproxima, de algum modo, ao que Lacan tenta articular naquela intervenção: ao real que nelas se satisfaz. A acentução da dimensão metonímica do sintoma, a falta de significantes-mestres para articular ali identificações primordiais, a descrença nas ficções do ser que lhes permitia recobrir a falta-a-ser que as habitava e que, outrora, elas denunciavam com sumo prazer… É quase como se elas tivessem lido o ultimíssimo Lacan e soubessem, já de antemão, que o sintoma, abordado na perpsectiva do Inconsciente real, se torna um «acontecimento de corpo», e que, se o corpo ainda fala, o significante se torna secundário com relação ao gozo. Que a linguagem, inclusive aquela que se deduz das significações inconscientes daquelas «mulheres maravilhosas», não pode ser senão uma elucubração da alínguaque seu corpo deixa apenas ouvir…

Mas, a psicanálise também mudou! Se o que Lacan enunciava nos anos 1970 já antecipava as mutações às quais a histeria se encontraria sujeita hoje, com a queda da ordem simbólica e a ascensão ao zênite social do objeto (a), a psicanálise teve que se atualizar para poder se fazer parceira desses seres falantes solitários nos quais se tornaram os sujeitos de outrora. É realmente como se a época tivesse seguido o mesmo sentido, a mesma orientação que o ensino de Jacques Lacan: aquela que vai do sujeito do Inconsciente à perspectiva do ser falante e que, para poder existir hoje, para fazer par com esses Uns solitários que povoam o mundo, devesse abordá-los no ponto de gozo autonômo no qual eles se encontram. Enorme desafio do qual não é certo que a psicanálise saia vitoriosa, arriscando-se a acabar sendo marginalizada como uma prática exótica e exotérica. Poderá contar, de qualquer modo, com a colaboração da histérica nesse combate, já que, se há alguém que se levantará contra todo saber que se pretenda Mestre, contra todo saber que pretenda saber sobre sua divisão subjetiva ― seja do lado da Ciência, das neurociências ou das terapias de diversos tipos ―, essa é, antes de qualquer outro, a histérica. Embora ela já não exista nas classificações dos manuais psiquiátricos, nem tenha sua angústia mostrada nas telas dos scannere nem nas imagens do seu cérebro.

Como Jacques Lacan, Márcia Rosa abandona a mão de Freud e toma a de uma escritora para avançar nessa zona: não somente a de Joyce, mas a fina mão de Clarice Lispector, essa voz delicada que se deixou escutar através de seus escritos. Já não será a talking cureque nos colocará sobre a pista do afeto que as representações inconscientes cifram, mas a writing cure, como tentativa, na histeria, de atenuar a carência do Pai nos tempos da queda de seu significante. Forclusão? Sim, mas generalizada: a perspectiva do sinthomapara todo mundo! e O Pai como um caso particular da restituição de um círculo que permite unir os outros três: Simbólico, Real e Imaginário. «Histeria rígida», dirá Jacques Lacan, logo após haver assistido à peça de Hélène Cixous sobre o quatuorque acompanha Dora. Histeria rígida que já não supõe o Pai como quarto nó na neurose. Um verdadeiro giro na teoria psicanalítica que Lacan opera aí, giro em primeiro lugar contra ele próprio, já que, como ele mesmo diz, foi ele quem pôs no centro da teoria o Nome-do-Pai.

O trabalho de Márcia Rosa explora o termo «histeria rígida», de absoluta atualidade, já que no enodamento de tipo joyciano parece substituir-se ao apoio que encontrava no Nome-do-Pai. E é certo que há muitas histéricas hoje: a autora o desenvolve no seu trabalho, com casos clínicos dando fé disso, que se apresentam mais como uma acentuação da metonímia, sem que apareçam significantes privilegiados que permitam capitonar, amarrar o gozo. Nem uma identificação a um traço paterno, nem sintomas bem definidos que deixem supor que o recalque está em jogo. Um tipo de flacidez do desejo que se manifesta frequentemente sob uma forma pseudodepressiva e que a transferência, mais em sua dimensão de encontro do que em sua dimensão de Sujeito suposto ao Saber, consegue apenas mobilizar.

Isso leva Lacan a se perguntar, na «Conferência de Bruxelas», em 1977, o que substituiu os sintomas histéricos de outros tempos e se a histeria não teria se deslocado até o campo social? Inclusive, ele se pergunta em 1977, se não teria sido a «maluquice» psicanalítica que a teria substituído? Pergunta sábia. O que quer dizer que a «histeria tenha se deslocado até ao campo social»? Quer dizer que não existem somente sintomas histéricos, mas que Lacan formula também um discurso histérico, o qual tem seu lugar mais além da presença, certamente cada vez mais reduzida, dos sintomas histéricos. E que a psicanálise, ao colocar o objeto (a) no lugar do agente, encontra-se compartilhando a mesma estrutura de discurso que marca nosso tempo, estrutura de «empuxo ao gozo» no qual o discurso do Mestre não é mais do que uma variante do discurso do Capitalista. Mas a maluquice analítica deve compartilhar a cena com «outras maluquices» que habitam nosso tempo de forclusão generalizada, de maneira dificilmente mais evidente…

Como se orienta a histérica neste capharnaümno qual o simbólico já não tem o lugar mais alto do pôster? A resposta se encontra no texto! Isto leva nossa autora a enunciar que, com Lacan, a psicanálise permite nomear o que de mais singular um sujeito tem. É a esta aventura que Márcia nos convida, diferenciando uniquenessdesingleness: se a unicidade se encontra do lado do Um do gozo pulsional, autístico, o singular se deduz do dizer que nos faz reconhecer o mais próprio que um ser falante possui: sua diferença absoluta. E será a resposta, uma entre elas, que a análise terá para oferecer ao sujeito histérico. A boa maneira de responder à sua reivindicação: que se reconheça sua diferença, mais além de toda unicidade.

Desperte, querido leitor! A psicanálise mudou de época junto com a histérica, e o formidável trabalho desta atenta psicanalista te permitirá atualizar-te, encontrando pistas para fazer entrar a prática freudiana na época na qual já não domina o significante, mas o gozo. Ela, a histérica, sabe isso porque o padece em seu corpo falante. Se tu não despertas, corres o risco de ver desaparecer essa pedra preciosa que Freud inventou sob o lodo da falsa Ciência e da impostura. Se tu não despertas, terás contribuído para esse desaparecimento, em todo caso, por omissão.

[1]«Intervention de Jacques Lacan à Bruxelles», publicada em Quarto(Supplément belge à La Lettre Mensuellede l’École de la cause freudienne), n, 2, 1981.

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