4 de June de 2020

Revista Desassossegos 3 – Educar, Governar, Psicanalisar na Era Digital

EDITORIAL     por José Martinho   Embarcámos no digital.   Com novos sete pecados, diz o Facebook, mais a…


EDITORIAL

 

 

por José Martinho

 

Embarcámos no digital.

 

Com novos sete pecados, diz o Facebook, mais a sua redenção: satisfarão a vossa preguiça com a Netflix, a gula com PedidosYa, a inveja com o Instagram, a ira com o Twitter, a avareza com a Amazon, a luxúria com o Tinder e a soberba com o Linkedin!

Mas as satisfações que tudo isso pode trazer não fecham a questão de saber como educar, governar e psicanalisar no século XXI.

Em 1937, Freud tinha avisado os professores, políticos e psicanalistas que as suas profissões eram impossíveis, porque deixam na realidade restos que não podem controlar.  É isso que sabem ainda hoje aqueles que permanecem abertos ao real que não obedece a leis, nem vai em cantigas.

Portanto é este indomável real que a ciência e a tecnologia têm procurado dominar. Esforço inglório, diga-se, que não consegue travar o mal-estar na civilização.

Freud concebia os instrumentos da “tecnologia forjada pela ciência” como órgãos auxiliares que superam a limitação dos nossos órgãos sensíveis e motores, ao mesmo tempo que acrescentam à natureza humana poderes divinos e diabólicos.

Depois do braço ter ficado armado com o arado e a espada, e a cabeça com o livro, onde cabe já um Cosmo, o telescópio e o microscópio vieram prolongar a vista, enquanto o telefone surgiu como uma extensão da voz. Por sua vez, o automóvel, o comboio, o transatlântico, o avião e a nave espacial aumentaram a velocidade de locomoção e encurtaram os tempos e os espaços.

É ainda nesta série de “próteses” que virão incluir-se as prodigiosas máquinas – computadores quânticos, telemóveis inteligentes, etc. – da civilização implantada pela revolução digital.

A maioria dos novos objectos que a tecnociência e o capital colocam agora no mercado são gadgets, mas que oferecem satisfações substitutivas que não convém de modo algum ignorar.

Para aceder ao sistema destes objectos é normalmente necessária uma palavra-passe. Mas continuam a ser os impasses encontrados no sistema que melhor mostram o que lhe resiste.

É com esta precária bussola que o educador, o governante e o psicanalista terão de abordar o real desbossulado com o qual se confrontam hoje. É também a isso que se dedica o número 03 da Desassossegos.

 

 

 

Related Posts

Estudios sobre lo real en Lacan

28 de Maio de 2020

28 de Maio de 2020

Lo más sorprendente del libro que el lector tiene entre sus manos es que ninguno de los dieciséis textos reunidos...

The Lacanian Review No. 9: Still life?

21 de Maio de 2020

21 de Maio de 2020

Presentation: The Lacanian Review No. 9: Still life? We began our research for this volume of The Lacanian Review with...

A practical way to feel better – Gerardo Arenas (EOL)

21 de Maio de 2020

21 de Maio de 2020

Psychoanalysis―Lacan said―is a practical way to feel better. This book can be considered an explanation of this sentence. Based on...

Estamos todos “infodêmicos”? – Tânia Abreu (EBP)

26 de Abril de 2020

26 de Abril de 2020

Publicado em Correio Express – Revista Eletrônica da Escola Brasileira de Psicanálise Já discutimos, entre nós, diversas modalidades de adição,...

“Escrituras del deseo de Escuela” – REVISTA VIRTUAL DE LA NEL-CIUDAD DE MÉXICO | Nro. 13 – MARZO 2020

22 de Abril de 2020

22 de Abril de 2020

Editorial Escrituras del deseo de Escuela   Siguiendo la modalidad introducida desde nuestro número anterior de elegir una referencia temática...

Il reale senza legge – Rete Lacan N.8

16 de Abril de 2020

16 de Abril de 2020

Laura Storti Responsabile Rete Lacan — È trascorso un mese da quando il Presidente del Consiglio Conte ha firmato il...

DESASSOSSEGOS N.4 – A psicanálise que interessa

15 de Abril de 2020

15 de Abril de 2020

EDITORIAL José Martinho       Colaboram comigo neste no 4 da série Desassossegos dois prestigiados psicanalistas argentinos de origem...

Comment s’orienter dans la clinique – UFORCA POUR L’UNIVERSITE POPULAIRE JACQUES LACAN

14 de Março de 2020

14 de Março de 2020

Au XXIème siècle, le parlêtre veut faire entendre sa souffrance, et tout particulièrement celle qui se situe aux franges de...

Cómo orientarse en la clínica – UFORCA POR LA UNIVERSIDAD POPULAR JACQUES LACAN

14 de Março de 2020

14 de Março de 2020

En el siglo XXI, el parlêtre quiere hacer oír su sufrimiento, y muy en particular el que se sitúa en...

Parole minori – La Psicoanalisi e le nuove generazioni – Nicola Purgato (SLP)

11 de Março de 2020

11 de Março de 2020

Il volume affronta la condizione dei minori come paradigma del soggetto contemporaneo, che della funzione degli oggetti e della parola...

Prédire l’enfant – François Ansermet (ECF)

27 de Fevereiro de 2020

27 de Fevereiro de 2020

Notre époque est marquée par l’incidence des technologies sur le vivant. Les récents progrès des technologies biomédicales ont ouvert des...

LE RACISME ET LE CONTRÔLE – Anaëlle Lebovits-Quenehen (ECF)

18 de Fevereiro de 2020

18 de Fevereiro de 2020

From Hebdo-Blog   Ce texte est un extrait de l’intervention d’Anaëlle Lebovits-Quenehen à « Question d’École », le 1er février 2020. Je...

Repères pour la psychose ordinaire – Jean-Claude Maleval (ECF)

11 de Fevereiro de 2020

11 de Fevereiro de 2020

C’est une création, que je conçois comme extraite [du] “dernier enseignement de Lacan” […] J’ai fait le pari que ce signifiant pouvait...

QU’EST-CE QU’UN ACTE DE PAROLE ? – Christiane Alberti (ECF)

8 de Fevereiro de 2020

8 de Fevereiro de 2020

From Hebdo-Blog   Ce texte est un extrait de l’intervention de Christiane Alberti à « Question d’École », le 1er février 2020....

Comments
Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.