14 de December de 2019

Sobre o falocentrismo (ou Notas de psicanálise, sexo e política, primeira parte) – Marcus André Vieira (EBP)

O que é falocentrismo? O que é falo? E porque falam em queda do patriarcado e do falocentrismo se por…


O que é falocentrismo?

O que é falo?

E porque falam em queda do patriarcado e do falocentrismo se por todo lado só há mais e mais gente falando grosso? A psicanálise é falocêntrica? Freud sim, Lacan não? Porque os psicanalistas são quase sempre de classe-média-branca-no-poder?

Pode ser que nossa programação, genética ou cultural como queiram, defina possíveis e impossíveis para o prazer. Isso não significa, porém, que nela esteja igualmente definida uma identidade de gênero estanque. É exatamente esse o ponto em torno do qual gira o preconceito contra o falocentrismo freudiano, feito de puro mal-entendido. Freud descreveu o modo como o sexual se organizava em sua época, destacando o falo como base dessa organização. As identidades padrão, em sua cultura, se definiam em um continuum que ia do “ter o falo” em um polo a “ser o complemento ideal de quem tem” em outro, o homem de verdade e a mulher de valor por trás de seu sucesso. Seu movimento, porém, era o de indicar como uma análise agia a partir do fracasso dessa identificação, virava-a do avesso. Entendeu-se o contrário, que ele visava a apologia e restauração da identidade fálica.

Quero retomar os pontos principais do debate. Achei melhor recapitular seus pressupostos sob a forma de proposições conceituais afirmativas, de aparência dogmática. Tomem-nas bem mais como pontos sujeitos à discussão, os que mais ressaíram do debate de uma comunidade de psicanalistas, a nossa, reunida sob a expressão “orientação lacaniana”. A lista, vocês verão, tem o aspecto de uma “ascensão e queda” do falo (ele é sempre assim), mas, sobretudo, quer apontar para o próprio da psicanálise lacaniana que ex-siste ao falo, existe fora, mas insiste de dentro, e que seguirá sua lida com o real da psicanálise com ou sem falocentrismo.

  1. O falo é uma imagem de completude

Toma-se uma parte do corpo que de vez em quando se enrijece e dá prazer e o órgão é fixado em sua ereção. O pênis, extraído da natureza do corpo, passa a ser colocado, dessa forma, em totens, vasos etc. Torna-se o falo. A vida que sacudia ocasionalmente esse órgão, agora está totalizada. É o falo do corpo dos deuses, eternamente ereto, imaginário. Portanto, que fique claro: o falo nunca foi o pênis, ele é apenas o pênis “bem na foto”.

  1. O falo é um operador de negativação

Freud destacou ainda que a ideia de um falo ereto em permanência tem efeito paradoxal sobre os que nele creem. Como os órgãos na realidade quotidiana nunca estão o tempo todo nesse estado serão marcados por uma falta que Freud chamou castração e Lacan formalizou como uma lei geral de negatividade. A castração nada tem a ver com mutilação, mas com o fato de que nunca se é infalível como, por exemplo, nos filmes pornô. A crença de que esse falo ereto existe tem efeito sobre todos os corpos, mortais, que dela partilha, o de um indexador de negativação. É o que desenvolve Lacan em seu Seminário 10em torno do tema da tumescência e detumescência do órgão.

  1. O falo é por natureza ambíguo

Completude ou negatividade? Falo imaginário ou falo simbólico? Falo positivo, poderoso ou falo em seus efeitos, significante da falta, do desejo? É impressionante como todos só tem olhos para o primeiro, mas são, na verdade, inseparáveis. Foram necessários Freud e depois Lacan para tornar claro o segundo aspecto, de negativação do gozo (o que não quer dizer que eles o tenham promovido como via correta para a sexualidade).

  1. O falo é um operador de partilha

A crença no falo distribui ainda essa negatividade de maneira binária. Uns acreditarão tê-lo no corpo, ao alcance da mão, serão os ditos masculinos. Não é tão bom quanto parece. Estes, mais que ninguém, sentirão que o deles não é isso tudo, que à diferença do falo imaginário dos deuses, o deles costuma estar flácido e apenas de vez em quando ereto e por isso serão para sempre assombrados com o medo do fracasso. Outros serão levados e crer que não o têm, que aquela coisinha que fazia sua felicidade masturbatória infantil era um engano, que precisariam, para gozar, passar por outro corpo. Esse outro modo de negativação fálica em seus corpos, mais explícito, levará, porém, a um gozo bem menos limitado quando encontrado. Sem medo de perder o que já não têm, esses seres serão mais intensamente “tudo ou nada”. Serão ditas e feitas mulheres. O falo (em seu aspecto simbólico, lógico) é um distribuidor de negatividade de modo complementar.

  1. Falocentrismo é assumir que apenas o pênis pode ser o falo

Só os que tem pênis podem ser machos? Podem ser reconhecidos por esse misto de ação e covardia que caracterizaria a masculinidade? Freud já dizia que não. Basta ter a certeza de que se tem o gozo ao alcance da mão, graças a um complexo jogo de identificações e interdições que Freud chamou de complexo (de castração e de Édipo) para sentir e agir seu corpo ao modo masculino. O mesmo vale para os seres que se identificarão como femininos, mesmo tendo pênis, pois a orientação sexual não se define com relação ao órgão, mas à premissa fálica. Uma sociedade se estabiliza solidamente dessa forma fazendo do binarismo fálico, como diz Lacan, um modelo adaptativo para o desenvolvimento da espécie. É porque essa distribuição binária funciona como a piada da aeromoça que propõe ao passageiro jantar. Ele pergunta “quais minhas opções?” e ela responde “Sim ou não”. Parece pobre, e é, mas por isso mesmo estável.

O problema é tomar essas duas identidades de base como sendo naturais e universais, como se só pudesse haver outras possibilidades de satisfação fora do binarismo edípico a não ser em termos de patologia ou desvio. É esse o centro da equaçãofalocêntrica, o da superposição pênis e falo em uma só e mesma entidade, garantida pela evocação de uma divina natureza, biologia ou bíblia. Seria da natureza do homem ter acesso direto ao poder e ao gozar e da mulher um acesso indireto e seria da natureza das coisas que só houvesse esses dois tipos de formas de vida sexuada, a masculina e a feminina.

Herman Makkink’s sculpture Rocking Machine in Clockwork Orange

Mas…

Nos últimos tempos o falocentrismo foi seriamente abalado. A evidente ressurgência de discursos radicais visando um poder fálico em todo mundo parece desmentir esse abalo. Ela não poderia atestar, como propõe o psicanalista E. Laurent, exatamente uma reação a ele? Nesse sentido, ela ratifica que houve abalo e justificaria amplamente o termo reacionário, no caso do Brasil, como exigência embrutecida de restauração da ordem fálica, hoje no poder. Porque a ordem patriarcal foi tão abalada? Muitas e muitas causas poderiam ser evocadas, que tal essas duas? Por um lado, a reprodução assistida esvazia a necessidade da cultura de sacralizar a diferença macho e fêmea, o que leva a um abalo na função da família como sede da diferença binária entre sexos. Por outro, o Google, como paradigma de um novo modo de relação com o saber, infinitamente ali e infinitamente disponível, esvazia a necessidade da diferença de gerações para que o saber da experiência acumulado por uma geração possa ser transmitido à outra. Por essas razões ou por outras o fato é que “pai e mãe” e “homem e mulher” deixam de ser vitais para a sobrevivência da espécie. Não foi culpa do PT.

Como ficam falo, falocentrimo, democracia e a psicanálise nesse contexto?

(continua)

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