A QUEDA DO FALOCENTRISMO – CONSEQUÊNCIAS PARA A PSICANÁLISE
XXII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano

2018 a Escola Brasileira de Psicanálise reunirá seus membros e todos os
participantes do Campo Freudiano no Brasil no Centro de Convenções Windsor
Barra, na cidade do Rio de Janeiro. Éric Laurent será o nosso conferencista convidado. Essa será a
ocasião de um aggiornamento da
prática da psicanálise. Leiam o argumento escrito por Marcus André Vieira (Coordenador da Comissão Científica)
Argumento
Quem mandou?
Quem mandou brincar na chuva, sair à noite?
Quem
mandou ir atrás, trair, amar demais, dormir de menos? Quem?
mandou ir atrás, trair, amar demais, dormir de menos? Quem?
Algo em mim, mais forte do que eu – diria cada um de nós quando percebe que
talvez tenha ido longe demais no caminho do desejo.
talvez tenha ido longe demais no caminho do desejo.

nós, sem limite ou descanso, quer mais – o que J. Lacan denominou gozo.
A expressão “Quem mandou?” porém, enfatiza apenas os perigos do desejo, como se
sempre, mais cedo ou mais tarde, tivéssemos de pagar a fatura de seus excessos.
Nem sempre, ao menos para Lacan que situa a psicanálise exatamente na arte de
encontrar a composição singular entre falta e excesso, desejo e gozo, que dê a
cada um a medida de seu destino.
A expressão situa-se, assim, no avesso de uma análise por supor que
há quem mande melhor, na justa medida. “Isso não se faz” é o que enunciaria a
tradição, nos convencendo de que se assim sempre foi é porque assim deve ser.
Seu poder, encarnado por Freud no pai é em grande medida virtual, uma vez que
ninguém sabe quem escreveu as regras da cartilha. Seguindo-a, no entanto,
assumimos práticas que constituem e organizam nossos corpos, repartindo até
nosso prazer: de um lado, o “masculino”, tido como localizado e vigoroso; de
outro, o “feminino”, dito abrangente e sensível. Falo foi o
nome freudiano para o ícone mais comum desta cartilha que, juntando a fome com
a vontade de comer, define inclusive nossa natureza sexuada, estipulando
complementariedades: para uma mulher um homem, para um pai um filho e assim por
diante.
há quem mande melhor, na justa medida. “Isso não se faz” é o que enunciaria a
tradição, nos convencendo de que se assim sempre foi é porque assim deve ser.
Seu poder, encarnado por Freud no pai é em grande medida virtual, uma vez que
ninguém sabe quem escreveu as regras da cartilha. Seguindo-a, no entanto,
assumimos práticas que constituem e organizam nossos corpos, repartindo até
nosso prazer: de um lado, o “masculino”, tido como localizado e vigoroso; de
outro, o “feminino”, dito abrangente e sensível. Falo foi o
nome freudiano para o ícone mais comum desta cartilha que, juntando a fome com
a vontade de comer, define inclusive nossa natureza sexuada, estipulando
complementariedades: para uma mulher um homem, para um pai um filho e assim por
diante.
Ocorre que a tradição se sustenta na continuidade. Quando a
tecnociência e o mercado dão as cartas, porém, quando o sentimento de que não
há mais limites ao que se possa fazer ou vender generaliza-se, as coisas mudam.
Se trinta anos na praça como taxista valem nada diante do GPS, para que as
prescrições do pai? Se o Google parece ler nosso pensamento ao
nos sugerir onde comprar produtos que apenas tínhamos começado a procurar, se
o Spotify e seus podcasts sem autor nos
deliciam sem que tenhamos que escolher o que ouvir, como crer em uma
determinação maior?
tecnociência e o mercado dão as cartas, porém, quando o sentimento de que não
há mais limites ao que se possa fazer ou vender generaliza-se, as coisas mudam.
Se trinta anos na praça como taxista valem nada diante do GPS, para que as
prescrições do pai? Se o Google parece ler nosso pensamento ao
nos sugerir onde comprar produtos que apenas tínhamos começado a procurar, se
o Spotify e seus podcasts sem autor nos
deliciam sem que tenhamos que escolher o que ouvir, como crer em uma
determinação maior?
O ocaso da crença no universal do pai acompanha-se da queda do
falocentrismo. Sem a avenida principal da tradição, abre-se um sem número de
vias para o gozo, para uma cultura de galáxias plurais no lugar de sistemas
ordenados. Quais seus efeitos em nossos corpos e cidades? Há os que se aferram
à tradição, mas, perdida sua eficácia natural, tornam-se pais severos de uma
violência sem par; há os que, sonhando com a diversidade, se notam às voltas
com o retorno de velhos dualismos ou individualismos ali onde parecia crescer a
pólis do poliamor.
falocentrismo. Sem a avenida principal da tradição, abre-se um sem número de
vias para o gozo, para uma cultura de galáxias plurais no lugar de sistemas
ordenados. Quais seus efeitos em nossos corpos e cidades? Há os que se aferram
à tradição, mas, perdida sua eficácia natural, tornam-se pais severos de uma
violência sem par; há os que, sonhando com a diversidade, se notam às voltas
com o retorno de velhos dualismos ou individualismos ali onde parecia crescer a
pólis do poliamor.
É possível querer sem o que transgredir? Seremos, no prazer,
condenados aos desejos e gozos do binarismo e à sua superação? E na política,
nada mais haverá além do poder do chefe e sua corrupção? Quem escolher quando a
representação está em frangalhos e nossos eleitos vivem para gozar? A que se
dedicar quando o desempenho vale mais que a ação eficaz? Quando somos
empreendedores ou consumidores, nunca mais trabalhadores?
condenados aos desejos e gozos do binarismo e à sua superação? E na política,
nada mais haverá além do poder do chefe e sua corrupção? Quem escolher quando a
representação está em frangalhos e nossos eleitos vivem para gozar? A que se
dedicar quando o desempenho vale mais que a ação eficaz? Quando somos
empreendedores ou consumidores, nunca mais trabalhadores?
Enquanto isso, o querer segue em desassossego, promove ocupações,
movimentos slow, saraus, intervenções, gozos trans, se
encanta com os ininteligíveis, ignora os likes, vibra com a
comunidade da comunidade sem exército, dá artes de sobrevida a nossos jovens
negros em tempos de genocídio. Não teria lugar a psicanálise nestes
espaços? Quais condições lhe favorecem ou fazem obstáculo hoje?
movimentos slow, saraus, intervenções, gozos trans, se
encanta com os ininteligíveis, ignora os likes, vibra com a
comunidade da comunidade sem exército, dá artes de sobrevida a nossos jovens
negros em tempos de genocídio. Não teria lugar a psicanálise nestes
espaços? Quais condições lhe favorecem ou fazem obstáculo hoje?
Nossa comunidade, psicanalistas e não psicanalistas que
compartilham da mesma orientação lacaniana, constitui-se de trabalhadores
decididos a enfrentar o desafio de abordar as questões envolvendo a queda do
falocentrismo, a partir do que sua prática lhes ensina. Seremos, psicanalistas,
suficientemente queers para estarmos à altura das soluções ao
mal-estar de nossos dias com as quais nos deparamos em nosso trabalho clínico?
De que modo seguiremos promovendo a surpresa de uma fala que encontra sua
singularidade como sintoma? E que, com ele, enfrenta o próprio destino e disto
faz acontecimento?
compartilham da mesma orientação lacaniana, constitui-se de trabalhadores
decididos a enfrentar o desafio de abordar as questões envolvendo a queda do
falocentrismo, a partir do que sua prática lhes ensina. Seremos, psicanalistas,
suficientemente queers para estarmos à altura das soluções ao
mal-estar de nossos dias com as quais nos deparamos em nosso trabalho clínico?
De que modo seguiremos promovendo a surpresa de uma fala que encontra sua
singularidade como sintoma? E que, com ele, enfrenta o próprio destino e disto
faz acontecimento?
Nosso Encontro Brasileiro do Campo Freudiano repartirá estes
horizontes em três eixos: Poderes, Eróticas e Sintomas. Interrogaremos
nossa prática a partir da ênfase nos poderes sem pai, na vida amorosa quando a
falta e o falo não dão mais as cartas e na pluralidade de novos sintomas que os
dias atuais descortinam. Contaremos com os flashes e reflexões
da prática psicanalítica, assim como com a bússola fundamental que nos
fornecem, por meio dos testemunhos de passe, as análises levadas às últimas
consequências. Poderemos, assim, examinar as “consequências para a psicanálise”
das soluções e impasses subjetivos de nosso tempo.
horizontes em três eixos: Poderes, Eróticas e Sintomas. Interrogaremos
nossa prática a partir da ênfase nos poderes sem pai, na vida amorosa quando a
falta e o falo não dão mais as cartas e na pluralidade de novos sintomas que os
dias atuais descortinam. Contaremos com os flashes e reflexões
da prática psicanalítica, assim como com a bússola fundamental que nos
fornecem, por meio dos testemunhos de passe, as análises levadas às últimas
consequências. Poderemos, assim, examinar as “consequências para a psicanálise”
das soluções e impasses subjetivos de nosso tempo.